30/09/2020

Mario Ruiz-Tagle, CEO da Neoenergia, aposta na digitalização e inovação para futuro das distribuidoras

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A modernização do setor elétrico tem provocado mudanças em todos os elos da cadeia. Em distribuição, o futuro envolve inovação, digitalização de redes e integração. O CEO da Neoenergia, Mario Ruiz-Tagle, falou sobre esse e outros assuntos relevantes para o futuro da energia no fórum “Modernização em curso: desafios e oportunidades”, realizado durante o Encontro Nacional de Agentes do Setor Elétrico (Enase), que contou com mediação de Luiz Augusto Barroso, presidente da PSR, e participação de Miguel Setas, CEO da EDP, e Andrew Storfer, diretor-presidente da América Energia.

Confira os principais temas comentados por Mario Ruiz-Tagle no evento:

Luiz Barroso: Esse mundo pós-Covid 19 terá um grande impacto para as discussões dos próximos anos. Como você observa os impactos e  as ações das autoridades e dos reguladores dos países onde vocês atuam?

Mário Ruiz-Tagle: A Covid-19 foi um fenômeno bem especial, começamos a ter as primeiras informações sobre a contaminação na China em dezembro de 2019  e só em março de 2020 nos deparamos com a situação crítica nos países onde a Iberdrola atua e no Brasil um pouco mais adiante. A Europa estava um pouco mais avançada em relação à contaminação, o que trouxe um desafio para o setor elétrico, dado o grau de desconhecimento da propagação e  impactos do vírus. O que foi adotado pelas autoridades foi um rápido confinamento e que permitisse a diminuição de atividades industriais e comerciais para evitar o contágio. Isso impactou fortemente na distribuição, pela queda do mercado e pelo aumento da inadimplência e todos os elementos associados ao KW vendidos. Mas há uma diferença entre a Europa e o Brasil. Na Europa, o mundo da distribuição e da comercialização são separados e isso nos dá uma ideia de como o Brasil tem que se preparar futuramente para o mercado livre. Podemos identificar a importância de separar essas duas áreas. As distribuidoras na Europa tiveram impactos bem menores do que as distribuidoras no Brasil por causa dessa junção da distribuição e comercialização.

Luiz Barroso: Em pesquisa realizada com a audiência do ENASE 2020, a grande maioria considera que a modernização está acontecendo em um ritmo lento e que o prazo ideal deveria acontecer dentro dos próximos três anos. Na sua opinião, quais são os três itens prioritários para a realização dessa modernização e como alcançar o prazo projetado pelos participantes de nossa pesquisa?

Mário Ruiz-Tagle: A separação do conhecido lastro de energia é fundamental para uma operação de destaque e mais flexível. Separar a distribuição e comercialização, incorporar novas tecnologias se faz cada dia mais necessário no sentido de alocar adequadamente o risco ao comercializador. Desta forma, o cliente pressionará cada vez mais o setor para investimentos tecnológicos, requerendo inovação, à medida que a liberalização avança no mercado até a tarifa residencial, quando esse cliente conseguir fazer a escolha do seu próprio comercializador.

Precisamos, sobretudo, de muito investimento na mudança do sistema de medição para permitir essa digitalização da rede, que viabiliza a comercialização dos clientes baixa renda. A modernização da matriz elétrica brasileira é o que vai trazer grandes avanços, como baterias, por exemplo. Eu incorporaria ainda um item que extrapola o setor elétrico, mas acredito que, sem dúvida, é um negócio fundamental e poderá acelerar a transformação: os desafios tecnológicos pós-Covid terão que ser incorporados nessa agenda de modernização. A questão de alocação de recursos e a sobra de energia serão fundamentais para quem contrata, hoje e a longo prazo, tenha clareza do que acontecerá no futuro. O setor precisa de um certo grau de previsibilidade e estabilidade para diminuir o custo sistêmico e beneficiar com isso a cobrança de tarifária do consumidor.

Luiz Barroso: As distribuidoras terão interesse em investir em geração distribuída, olhando para energia solar, principalmente? Abrir empresas que especializadas no negócio seria, de fato, bom para elas ou seria inevitável não investir? Em paralelo existe uma discussão regulatória sobre o assunto. Então, na sua opinião, qual seria a esfera adequada para discutir o tema de Geração Distribuída?

Mário Ruiz-Tagle: Na Neoenergia nós temos nossa comercializadora e temos uma área de GD. Acredito que seja uma tendência mundial este tema e aproveitar o recurso do sol, no ponto de vista do cliente, é de fato uma alternativa de utilização de energia limpa. A geração solar está muito ligada à mudança da utility do futuro e precisamos pensar que a cada mudança no perfil de distribuição dentro de nossas áreas de concessão, o nosso mundo de operador da rede de distribuição também muda. Temos fluxos distintos na rede e tudo isso demanda novos investimentos, novas tecnologias, reforço de rede etc.

Não estamos falando de “taxar o sol” ou ter restrições à expansão da geração distribuída, mas existem estudos feitos em locais onde a tecnologia está em um grau avançado e nos permite certo nível de aprendizado, acendendo uma luz para a ineficiência tarifária. Todos os países que incorporaram a energia solar inicialmente na medição do cliente, começaram por um sistema que faz uma espécie de compensação entre a distribuição e geração. Esse comportamento gera uma grave distorção no valor, fazendo com que a segurança de um segmento também seja para o outro.

A espinha dorsal do setor é a distribuição e não é possível ter tudo e não ter uma rede adequada neste elo da cadeia. A distribuidora é a grande bateria do sistema, então é certo que a geração distribuída compartilhe certo grau da segurança do sistema.

Luiz Barroso: Como vocês estão nesse cenário de demanda por inovação?

Mário Ruiz-Tagle: A Iberdrola e a Neoenergia são companhias que vêm trilhando o caminho de energias de fontes renováveis e do combate às mudanças climáticas já há muitos anos. Nosso primeiro parque eólico já tem mais de 18 anos. E esse é um caminho em que temos novos atores. Vemos a indústria do petróleo se aproximando da geração de fontes renováveis. Isso é um sinal muito bom para o clima, para o mundo. Eu sempre falo que o século 19 foi o século do carvão, o século 20 o do óleo e gás e os séculos 21, 22 e 23 têm que ser da energia elétrica.

Quando falamos que são os séculos da energia elétrica, o que vamos encontrar é uma forte necessidade de investimento no setor, que têm que ser alocados em expansão, geração, transmissão, modernização e digitalização das nossas redes de distribuição. O papel da distribuição do futuro vai ser muito mais atuante. Vamos gerar uma utility muito mais integrada do ponto de vista da gestão de energia. A transmissão também é uma importante necessidade no momento. Só conseguimos fazer transmissão de grandes volumes com redes maiores ou com menos cabos e, por isso, podemos mudar da corrente contínua para corrente alternada. São essas grandes tecnologias que estão avançando.

A organização de baterias reduzirá a necessidade de transmissão, mas gerará outras necessidades de investimento. Quando vemos as cifras de investimento que o Brasil coloca para os próximos dez anos, estamos falando da ordem de R$ 220 bilhões a R$ 250 bilhões, que a gente tem que captar de um mercado financeiro e onde o custo desse dinheiro e a percepção do risco no setor vão ser muito relevantes do ponto de vista de conseguir passar toda essa governança que temos criado por anos para o consumidor. O desenvolvimento do mercado financeiro pode trazer capital do exterior para conseguir fazer frente à diferença de moeda. É muito importante avançar nessa agenda para conseguir o volume que a equação do setor vai precisar e eu acredito que o setor tem pela frente um desafio gigantesco.

O mundo pós-covid terá diferenças. Acredito que será um mundo muito mais digital, muito mais rápido. O nosso desafio de inovação tem que ter exatamente a mesma velocidade que teve a migração de trabalhar na empresa para trabalhar em home office. Em uma semana, a gente conseguiu colocar 5 mil pessoas em home office, com sistemas funcionando e a segurança dos dados preservada. Esse desafio de inovação é o que nós temos que trazer para os nossos colaboradores. O setor elétrico histórico e estável terá que migrar muito rapidamente para um espaço mais ágil, para um setor mais dinâmico, muito mais interativo.

Luiz Barroso: Como você vê as oportunidades de participação no leilão da CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica) e da CEB (Companhia Energética de Brasília)?

Mário Ruiz-Tagle: O grupo hoje tem 14 milhões de clientes e um plano de investimento muito focado dentro das nossas áreas de concessão. Temos a responsabilidade, como gestores, de criar valor para os nossos acionistas e esses são ativos interessantes. Têm potencial de sinergia do ponto de vista das nossas operações e atendem um novo mercado para a Neoenergia. Buscamos oportunidades que criem valor e olhamos com atenção, mas sempre respeitando uma política muito responsável de alocação de capital, porque é isso que gera confiança dos investidores e garante que tenhamos sucesso nos planos de expansão. Não adianta fazer ofertas exageradamente arriscadas para aumentar volume de clientes e território atendido, tem que ser um raciocínio econômico, financeiro e operativo, que não nos tire do nosso foco. Nós temos um plano da ordem de R$ 20 bilhões de investimentos em geração de renováveis, em parques eólicos que estamos construindo, e em linhas de transmissão. Esse é o grande plano que nós temos para os próximos anos, mas estaremos abertos a essas oportunidades que possam criar valor para os nossos acionistas, não só no mundo de distribuição, também de transmissão e geração.


 


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