​​De volta a escola​

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Eu já morei em muitos lugares. Todo ano, eu ajudava minha mãe na colheita do feijão. Saía aqui da cidade e ia para a roça. Ficava um tempo lá, parava de estudar. Quando voltava, ia para a escola de novo. Mudava só de amigos, eles tinham ido para outra série". Por muitos anos, essa foi a vida de Alisson de Jesus, 13 anos. Filho de uma família numerosa – são nove irmãos – e com dificuldades financeiras, o menino teve que mudar muitas vezes de casa: morou com a mãe na roça, com o pai na cidade, com a irmã mais velha, com uma tia. A cada mudança, parava de estudar, e foi ficando para trás.


A trajetória de Alisson começou a tomar um rumo diferente no início de 2018, quando ele recebeu a visita de Lucijane Neves, coordenadora operacional da Busca Ativa Escolar do município de Euclides da Cunha (BA), onde mora. A Busca Ativa Escolar é uma iniciativa do UNICEF e parceiros para ajudar os municípios a encontrar e levar para a escola crianças e adolescentes que estavam fora dela. 


Na época da visita, Alisson morava com uma irmã e havia deixado os estudos mais uma vez. "A Lucijane perguntou por que eu não estava indo à escola. Eu disse que não ia porque eu não tinha caderno e ela disse que arrumaria um para mim... Mas, na verdade, eu não me interessava em ir para a escola", conta o adolescente, meio sem jeito. Alisson tem facilidade em matemática, mas ainda não aprendeu a ler e escrever.


Em uma longa conversa, a coordenadora convenceu o adolescente a dar uma nova chance à educação. Lucijane sabia que a volta às aulas não seria fácil. Alisson estava com 13 anos e, com tantas idas e vindas, havia ficado com quatro anos de atraso escolar. Em vez de cursar o 8º ano do ensino fundamental, seria matriculado no 4º ano, no qual parou. O tema foi levado a uma conversa com Roberto Reis, diretor do Centro Educacional Professora Durvalina Abreu de Andrade, onde o menino já havia estado muitas vezes, e voltaria a estudar quando as aulas começassem. 


"Alisson já tinha sido aluno da escola. Mas ele evadia por causa da questão familiar. Como não tinha moradia fixa, seguia o pai, seguia a mãe, e, de certa forma, era obrigado a sair da escola. Quando voltava, tinha perdido o ano", conta Roberto. A história do adolescente não é exceção na escola. "Hoje, 60% do nosso público tem distorção idade-série [dois ou mais anos de atraso escolar]", explica o diretor.


Lidar com esse desafio não é simples. "O professor quer a escola e o aluno dos sonhos. Mas a gente não encontra essa realidade. A distorção idade-série e o déficit de aprendizagem são nossos grandes desafios, porque são esses os estudantes com mais risco de sair da escola", diz ele.


Roberto e sua equipe investem em práticas pedagógicas voltadas especificamente a esses alunos, entendendo o momento de vida deles, os conhecimentos que trazem e o que precisam aprender. "Para trabalhar com meninos e meninas em atraso escolar, a gente não pode seguir no mesmo ritmo que a escola vem adotando com aqueles que estudam regularmente desde o início da vida escolar. Muitas vezes, nós deixamos de lado a série em que o aluno parou e começamos da base, da leitura e da escrita. Só assim a gente vai poder avaliar se geralmente houve um progresso".


​​Com Alisson, esse olhar atento da escola tem dado resultados. "Nas primeiras semanas, o Alisson estava um pouco triste, se sentindo estranho na escola porque não eram os mesmos colegas que ele tinha na série anterior", conta o diretor. Em conversa com a coordenação pedagógica e a professora da turma, a equipe começou a acompanhar os passos do garoto e planejar as aulas para que ele não desistisse. "Hoje, a gente percebe que o Alisson está totalmente à vontade na escola. E mostra-se um aluno bem interessado", comemora Roberto.



O primeiro passo de Alisson para uma nova história foi dado. Ainda há um grande caminho a percorrer, mas todos estão confiantes. Se depender de Roberto, da escola e do próprio Alisson, essa será uma trajetória de sucesso escolar: 


"Eu voltei para a escola, de novo. O que eu gosto de fazer é estudar. Quero continuar aqui e terminar a escola. Vai ser bom, porque eu vou aprender a ler, a escrever", diz ele, esperançoso. 




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