Programas ambientais monitoram, resgatam e preservam espécies nativas no entorno da Usina Hidrelétrica Baixo Iguaçu

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​Jardel Brizola começou de forma acanhada contando sobre suas ocupações do passado. “Trabalhava em serraria, lavoura…” Mas logo o homem que pouco tinha de tímido compartilhou o que, de fato, tomava a maior parte de seu tempo anos atrás. “Vem de família, a gente se criou sobrevivendo dos recursos naturais se alimentando de frutos e animais”. Há tempos atrás a prática da caça e pesca na região era costumeira para sobrevivência dos povos lideiros ao Parque Nacional do Iguaçu.    

​Com 35 anos, ele passou mais de 20 pescando e extraindo plantas da Mata Atlântica de ​Capanema, município do sudoeste do Paraná. Mas parou há três anos e meio quando o Consórcio Empreendedor Baixo Iguaçu (CEBI) o contratou para participar dos programas socioambientais da área de influência do empreendimento. ​

Desde o início do processo de licenciamento ambiental, o CEBI coordena, entre outros, programas de monitoramento e conservação da fauna terrestre, aquática e semi aquática.

“Antes e durante a instalação do empreendimento, fizemos o inventário da fauna no entorno para conhecer a biodiversidade na região", explicou Juliano Tupan, biólogo do CEBI, de um barco às margens do Rio Iguaçu na área da usina hidrelétrica. O objetivo é conhecer e preservar os animais nas matas e nas águas.





 




ALTA BIODIVERSIDADE

Nas ações de campo, as equipes registraram mais de 300 vertebrados, entre eles espécimes ameaçados de extinção, como o gato-do-mato-pequeno e a onça-parda, e as chamadas bioindicadoras, ou seja, sensíveis à ação humana, como o gavião-pato e o pássaro macuru. Isso mostrou a alta diversidade da região, apesar do forte impacto da pecuária e da agricultura. 


Alguns animais receberam especial atenção no monitoramento, entre eles a lontra, o cágado-rajado e, principalmente, o peixe surubim do Iguaçu. Outra ação focou na preservação da onça-pintada, o maior felino das Américas e uma espécie vulnerável. A equipe da usina realizou oficinas de educação ambiental com a comunidade e mapeou os prováveis locais de ocorrência do animal. 


Após a realização do inventário das espécies, as equipes tomaram medidas preventivas para preservar os animais durante as obras. “Como forma de mitigar o risco à fauna durante a implantação da usina, contratamos equipes de biólogos e veterinários para o acompanhamento durante a limpeza da área do empreendimento, tanto dentro da floresta, quanto no entorno da área do reservatório”, completou Juliano Tupan. 


Dessa forma, antes de qualquer atividade da obra, essas equipes se deslocavam para resgatar as espécies com risco de serem afetadas. Se estivessem em boas condições de saúde, os animais eram registrados e soltos na Área de Preservação Permanente (APP). Se fossem mais vulneráveis, eles eram levados a uma base de apoio que foi erguida temporariamente às margens do rio pelo CEBI. Lá recebiam alimentação especializada, tratamento e acompanhamento clínico durante todo processo de reabilitação até estarem aptos para serem realocados nas áreas de soltura pré-determinadas. 


CONHECIMENTO POPULAR​


A pé pelas trilhas ou navegando de barco, Brizola participou de todas as fases dos programas de monitoramento e resgate. Seu conhecimento da região se tornou essencial para os biólogos que faziam o mapeamento das espécies nativas. Ele trouxe ainda 12 colegas conhecedores da biodiversidade local para ajudar no trabalho dos especialistas. “Quem vai num lugar novo, onde tem que ir? Vai procurar o senhorzinho de 80 anos, vai buscar quem é da região. Ele vai saber se tem esse ou aquele bicho”, diz consciente de seu papel e do de seus companheiros. 

Brizola sabia identificar uma queixada, espécie de porco do mato parecida com um javali, da margem oposta do rio, a centenas de metros de distância. “Escutava a briga do outro lado, via corvo voando, o cheio forte. Já sabia que era ele”. Também foi ele que levou biólogos ao local de reprodução de uma rã em risco de extinção, da espécie Crossodactylus schmidti. O biólogo Juliano Tupan conta que os especialistas não haviam encontrado a rã em dois anos de pesquisas de campo. Foi só mostrar a foto para Brizola que ele indicou o lugar. Aquela rã, revelou o ex-pescador, servia de isca para a pesca do surubim. 

Ao mesmo tempo, Brizola ganhou uma oportunidade e mudou de rumos. “Fiquei 100% com eles. Vi que não era vantagem caçar”. Uma dessas vantagens, ele diz, foi financeira. Era preciso derrubar 30 árvores de palmito juçara, hoje preservado, cada vez mais raro na mata, para ganhar R$ 100. A outra mudança foi pessoal. Brizola se sensibilizou. “Eu vejo hoje a tamanha crueldade que a gente era capaz de fazer. Antes tinha muita natureza. O que estamos vendo hoje?”.


RESGATE CINEMATOGRÁFICO​


​O pescador que já fisgara 21 peixes surubins em uma só noite foi o mesmo que contribuiu para o programa de pesquisa que visa preservar essa espécie no Rio Iguaçu. E tem muitas histórias para contar.

Como um episódio que aconteceu durante o enchimento do reservatório da usina hidrelétrica. O processo duraria cinco dias, mas foi interrompido por 24 horas para o resgate de centenas de ovos e filhotes de aves nativas que ficaram ilhados no Rio Iguaçu. As espécies foram levadas para o centro de cuidados antes de voltarem para a natureza. 

“Eu era o responsável pelos embarcados. Ficamos lá dia e noite [no enchimento do reservatório]”, lembrou Brizola, que cita o resgate dos pássaros. “Tiramos umas 500, 600 aves, era época de ninho. Aí levamos os bichos para a nossa casa, eu morava lá [no centro de cuidados]. Ficava a noite toda acordando e tratando dos filhotes. Para mim foi um aprendizado impressionante”. 

Ele aprendeu a se relacionar de forma mais afetiva com os animais, a pronunciar nomes científicos e a distinguir a diferença das espécies. “Das serpentes do lago, eu peguei cada uma mais linda. Fiquei de cara! Os biólogos ficaram impressionados. Antes achava que era tudo cobra verde. Aí fui vendo que tem várias. Eles foram me contando”. 


MONITORAMENTO CONTÍNUO

As ações ambientais se mantêm mesmo com as obras da usina concluídas. Os especialistas realizam campanhas mensais para monitorar o desenvolvimento das espécies e garantir que seus ciclos de vida não sejam impactados pelo empreendimento - e que possam até prosperar com a ajuda deles. 

Jardel Brizola continua na equipe. Ele ficará responsável pelo monitoramento de peixes, pássaros, morcegos, lontras e pela manutenção das trilhas nas matas protegidas, entre outros itens de uma longa lista de atividades. “As novas gerações estão diferentes. Se disser que matei uma cobra para minha sobrinha de quatro anos, ela vai começar a chorar. Hoje eu falo pra ela que estou cuidando dos bichos”, orgulha-se ele da nova carreira. 

Esses programas se alinham aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima), 14 (Vida na Água) e 15 (Vida Terrestre).





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