
Uma década voando alto: como o Flyways Brasil mostra que continuidade é a chave da conservação
Por Renata Chagas
No campo do Investimento Social Privado, transformações sistêmicas raramente acontecem no curto prazo. Elas exigem continuidade, previsibilidade e relações de confiança capazes de sustentar processos complexos ao longo do tempo. Quando há constância no apoio, iniciativas ganham maturidade, acumulam evidências, fortalecem redes e deixam de ser ações isoladas para se tornarem referências capazes de influenciar políticas públicas. Essa convicção não é teórica: ela se constrói na prática, ao longo de trajetórias consistentes.
É sob essa perspectiva que se insere a parceria entre o Instituto Neoenergia e a SAVE Brasil no apoio ao Flyways Brasil. Iniciada há dez anos, essa experiência reafirma que a conservação ambiental só se consolida como política pública quando existe compromisso de longo prazo. Foi essa permanência que permitiu ao Flyways transformar ciência em impacto concreto no litoral potiguar.
O projeto nasceu em 2015 com um propósito claro: proteger as aves limícolas migratórias que cruzam continentes até encontrar, na Bacia Potiguar, um dos principais sítios de descanso e alimentação da espécie. Desde o início, a estabilidade do apoio permitiu algo fundamental para o ISP: a possibilidade de planejar de forma contínua. Com previsibilidade, foi possível desenvolver metodologias robustas, aprofundar pesquisas e engajar comunidades locais de forma progressiva, respeitando os tempos do território e da ciência.
Ao longo dessa década, o projeto realizou 137 censos, identificou 22 espécies e registrou mais de 230 mil aves. Mais do que números, esses resultados evidenciam um aprendizado central para o investimento social: dados consistentes não se constroem em ações pontuais. Eles dependem de tempo, repetição e confiança institucional. Foi essa constância que possibilitou, em 2024, o reconhecimento da Bacia Potiguar como Sítio da Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas (WHSRN), um marco histórico que dificilmente seria alcançado em ciclos curtos de financiamento.
O Flyways também se tornou referência em educação ambiental e ciência cidadã, mostrando que impactos estruturais passam, necessariamente, pela formação de pessoas. O projeto já envolveu mais de 3.400 estudantes, formou professores, certificou escolas como “Amigas das Aves Limícolas” e produziu materiais educativos que fortalecem o vínculo entre conhecimento científico e pertencimento local. Em 2024, apoiou a criação da Lei Municipal do Dia das Aves Migratórias em Guamaré e realizou o Festival das Aves Limícolas, avanços que demonstram como a continuidade do investimento amplia a capacidade de incidência institucional no território.
Mais recentemente, a atuação foi expandida para novas frentes, como a cartografia social com marisqueiras, que irá subsidiar um piloto de restauração de manguezais. Essa etapa revela outro aprendizado relevante para o ISP: projetos maduros conseguem integrar o olhar técnico ao conhecimento tradicional das comunidades. Os mapas coletivos fortalecem a leitura compartilhada do território, identificam áreas sensíveis para a biodiversidade, usos tradicionais e pontos de pressão ambiental, oferecendo bases mais justas e eficazes para estratégias de conservação e adaptação climática. Nesse contexto, conservar também significa incluir, escutar e construir coletivamente.
Ao completar dez anos de parceria, fica evidente que nenhum desses resultados teria sido possível sem continuidade. Projetos socioambientais operam em ciclos longos: é preciso tempo para gerar evidências, fortalecer vínculos, engajar comunidades e transformar conhecimento em políticas públicas. Apoiar de forma consistente é criar as condições para que iniciativas deixem de ser experimentais e passem a atuar como estruturas permanentes de transformação.
Diante disso, surge uma pergunta inevitável: até que ponto práticas orientadas pelo curto prazo conseguem, de fato, contribuir para mudanças profundas e sustentáveis? A trajetória do Flyways Brasil nos mostra que inovação, no campo socioambiental, não se resume ao novo. Ela se revela, sobretudo, na capacidade de permanecer. É no compromisso duradouro, e não na lógica da descontinuidade, que se constroem legados, se influenciam políticas e se contribui de maneira consistente para o futuro que desejamos.
--
*Renata Chagas é carioca, formada em jornalismo, com pós-graduação em Comunicação e Imagem e Comunicação Empresarial. Desenvolveu sua carreira em empresas de grande porte nas áreas de Sustentabilidade, Comunicação Corporativa, Marketing, Relações Institucionais e Responsabilidade Social. Foi gerente de Comunicação da Iberdrola Brasil (2005-2016), liderando a criação do Instituto Iberdrola Brasil. Foi Gerente de Comunicação e Sustentabilidade da Prudential do Brasil de 2016 a 2018, quando também presidiu o Comitê de Sustentabilidade da AmCham RJ. Desde 2018, é Diretora-Presidente do Instituto Neoenergia, parte integrante do investimento social da Neoenergia.